José
Psicólogo CRP 07/21456
Era o ano de 1967 ou 1968, não
lembro. Estávamos quase meio ano juntos, desbravando com alegria os nossos
livros. Sonhávamos com a admissão ao ginásio, que viria tempos depois. Todos os
nossos cadernos eram caprichosamente encapados, será que alguém lembra disso? Não
podia ter rabiscos e não existia corretor. Muitas vezes, para não fazer feio,
arrancávamos sorrateiramente alguma página borrada para não perder pontos. O
nosso material escolar era sempre bem cuidado.
E no mais bem-composto mundo de
nossas almas inocentes fazíamos a nossa travessia. O mundo era uma floresta
encantada e seguíamos felizes a nossa trajetória escolar. A sensação era que
aquele mundo e aquela turma seria inseparável, a sensação era a de um para
sempre, para a eternidade. Mas, um fato desmanchou o nosso sentimento. José, o
menino de olhos brilhantes deixaria a escola. Esse acontecimento tornou-se o
primeiro revés de nossas vidas.
Fizemos uma triste festinha para
nos despedir de nosso colega. A nossa sala de aula se transformou numa cozinha
com bolos e bolachas e sorrisos. Dona Laura, fez um suco gelado. José ganhou um
presente da turma, mas a sua timidez o impediu de dizer alguma palavra. Seus
olhos estavam molhados. Os mais próximos de José estavam tristes e a turma
estava embasbacada diante desse fato que cutucava a nossa alma. José mudou-se
com a família para São Paulo e depois desse dia nunca mais o vimos. Durante
muito tempo a sua mesa continuou na sala e tínhamos uma certa expectativa de
que a qualquer momento ele cruzaria a porta da sala. Mas, isso nunca aconteceu.
Depois da despedida de José não
lembro de outro colega que tenha nos deixado. Durante a festa de final de ano,
antes de nossas férias, o semblante de José estava pálido em nossas almas, mas
não esquecido. Algumas vezes, perguntamos por ele: onde está o José? Mas, o
silêncio era a única resposta. Muito cedo ficou a lição: algumas pessoas passam
pela nossa vida. Chegam, entram e depois vão embora. Assim aconteceu com
José...

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