O ilustre parente
Naquela casa o meu pai viveu os últimos anos de sua mocidade. Morou
naquele lugar até sair para casar, assim como outros de seus irmãos. Quando
criança pude usufruir os jardins e as parreiras que cobriam parte do terreno. A
outra parte era ocupada com a horta, com os laranjais e os canteiros de dálias,
rosas e outras flores. No fundo do quintal, em baixo de uma parreira, existia um
poço que nos dava água pura em abundância, a roldana que suspendia o balde era
pintada de um verde que jamais vi igual.
No interior da casa havia cômodos
organizados e limpos e dentre eles um quarto que era um enigma para nós, os
netos. Havia nele um roupeiro antigo, pertenceu aos antepassados de minha avó
que vieram da Alemanha. Ele guardava vários cobertores que nos aqueciam no
inverno e roupas que nunca soubemos de quem eram. A cama de ferro, sempre esteve
coberta com um cobertor de lã que fora de um antigo parente que serviu no
quartel e que esteve muito próximo de lutar na Segunda Guerra. E isso era tudo o
que sabíamos desse ilustre parente.
Mas, de todos os móveis daquele lugar
o mais apreciado e o mais enigmático era um baú. Certa ocasião tentamos
movimentá-lo, sem sucesso. Era pesado demais. A nossa curiosidade nos levou a
romper o cadeado e levantar a tampa. As dobradiças rangeram antes que pudéssemos
ver o seu conteúdo. E os nossos olhos se esbugalharam diante do que vimos.
Encontramos um velho uniforme de soldado, um cinto e um cantil e mais outros utensílios
que, na época, supomos pertencer ao desconhecido de nossa família.
Nunca comentamos sobre os
conteúdos do antigo baú, mas procurávamos descobrir, através de discretas
perguntas, sobre “aquele tio que um dia esteve prestes a embarcar para a guerra”.
Nunca, porém, ninguém nos disse nada. E crescemos com esse segredo que nunca
foi desvendado. Havia muitas histórias interessantes por parte dos parentes
alemães de minha avó. Mas, tudo era guardado a sete chaves, assim como aquele
velho baú trancado com cadeado.
O tempo passou e aquele baú sumiu
e não tivemos tempo de saber de quem eram aquelas roupas de soldado e se o ilustre
parente realmente existiu. O que ficou de verdade foi aquela casa e aquele
quintal com os seus parreirais e as suas dálias e aquele poço que saciou a nossa
sede...

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