A mulher russa...

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“A literatura russa, como, digamos, o cinema norte-americano
e a música pop britânica, parece nos pertencer tanto quanto a
seu país de origem” (Irineu Franco Perpetuo. Como ler os Russos, página 7)

    No ano de 1984, precisamente quando eu iniciava a segunda faculdade e que estava profundamente ligado aos estudos de cinema, me matriculei num curso de língua inglesa. Na primeira aula, com uma professora italiana, tivemos de responder a interessante questão: "Por que quero estudar inglês?" Tínhamos razões diferentes, eu não sei o que respondi, não lembro. Mas deve ter sido algo tipo “ler mais sobre o cinema americano” ou algo próximo disso. Porém, chamou a atenção uma senhora loira, alta (altíssima) que usava brincos grandes, roupas enormes e coloridas, bolsas extravagante (e caras) e seus lábios eram fortemente vermelhos. Ela lembrava a famosa jurada do programa do Chacrinha, Elke Maravilha. A sua simpatia era incrível.
    Quando chegou a sua vez de responder à questão, ela respondeu: “eu preciso aprender a língua inglesa porque vou seguidamente para a Rússia”. Surpresa geral na sala. Naquele tempo a Rússia e os russos eram praticamente desconhecidos e, na verdade, não gozavam de simpatia. Mas, aquela senhora amava a Rússia como se tivesse nascido lá. Nunca perguntamos de onde ela era, russa é que não era.
Certa vez, ela falou sobre as suas viagens, estávamos no restaurante que ficava no interior da escola, na rua Riachuelo. Falou das suas inúmeras viagens para a Rússia e do carinho que tinha pelo país que ficamos admirados. Ela falava da Rússia como se tivesse vivido lá toda a sua vida. Ela descrevia as paisagens com tantos detalhes que nos emocionávamos e falava do povo russo com tanto carinho que derrubou alguns preconceitos que tínhamos da Rússia e do seu povo.
    Um dia, conversamos sobre a “mulher russa”, assim passamos a chamá-la, e começamos os nossos devaneios sobre a desconhecida e enigmática senhora. Numa dessas conversas uma amiga colocou a sua dúvida sobre ela: “Será que ela não é uma agente da KGB infiltrada em nosso meio?”.
    Nunca mais eu soube dela. Depois que terminamos o curso cada um foi para o seu lado e hoje eu gostaria muito de falar com ela. Agora, lendo um pouco de literatura e da cultura russa eu descubro que aquela mulher tinha razão...

Ana Maria Da Silva Freitas

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