O bule de café e as flores na janela
Sempre fora um homem prático, sem
muitas delongas com a vida ou sem perder tempo com as suas perdas. Sempre
recomeçava, muitas vezes do pouco que a vida lhe havia deixado, às vezes quase
nada. Aprendeu a viver com o pouco, as suas necessidades não eram muitas, um
lugar simples para dormir, uma cozinha com poucas coisas e uma casa com poucos
móveis, só o essencial. Era um homem despojado, sempre fora. Apegos? Nenhum,
nem a vida que agora dava sinais do fim. Era um homem, comparando aos que se
surpreendem diante da doença, sem nenhuma emoção forte, apenas vivia com toda a
suavidade.
Naquela manhã ele se preparava para rever a sua terra, talvez precisasse urgentemente se despedir da paisagem que o vira nascer e crescer. Não haveria choro, nem queixas e nem nostalgias, ele sabia que um dia iria partir e estava feliz por visitar o lugar que lhe ensinara a encarar vida. Quando saiu de sua aldeia ele prometeu voltar e assim fez muitas vezes. Mas, agora talvez fosse o último encontro. Mas, nada de queixas. Passou o café, fez uma torrada e colocou o vidro de geleia em cima da mesa. Tomou cada gole de café como sempre fazia, sentindo o gosto de uma bebida que amava.
Duas horas depois estava no aeroporto
e, em poucas horas, desembarcaria no aeroporto de seu país, lugar que nunca
esqueceu e que sempre voltava para rever alguns amigos que nunca deixaram o
lugar. Mas a sua grande paixão era a paisagem que ficou gravada em sua alma,
especialmente o Vale do Issa onde viveu a sua infância. Um lugar que lhe dava a
certeza da eternidade da vida... O bule com resto de café ficara à beira do
fogão e uma cortina cobria a metade da janela. Uma brisa fez dançar as flores
das jardineiras penduradas nas paredes. Havia algo que soprava vida naquele
lugar...

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