O bule de café e as flores na janela

     O dia nem tinha clareado, faltava muito para a alba do sol e os pássaros ainda nem tinham dado as primeiras notas de suas canções, mas ele já estava na cozinha fazendo o seu café. Havia muito o que fazer naqueles dias. Ele sabia que não tinha muito tempo o seu corpo começava a sentir os primeiros sintomas do tratamento. Mesmo que a vida lhe parecesse curta, no fim de uma longa história de muitos casamentos e de alguns filhos, ele sentia que era preciso continuar vivendo, até que as luzes se apagassem para sempre.

    Sempre fora um homem prático, sem muitas delongas com a vida ou sem perder tempo com as suas perdas. Sempre recomeçava, muitas vezes do pouco que a vida lhe havia deixado, às vezes quase nada. Aprendeu a viver com o pouco, as suas necessidades não eram muitas, um lugar simples para dormir, uma cozinha com poucas coisas e uma casa com poucos móveis, só o essencial. Era um homem despojado, sempre fora. Apegos? Nenhum, nem a vida que agora dava sinais do fim. Era um homem, comparando aos que se surpreendem diante da doença, sem nenhuma emoção forte, apenas vivia com toda a suavidade.

    Naquela manhã ele se preparava para rever a sua terra, talvez precisasse urgentemente se despedir da paisagem que o vira nascer e crescer. Não haveria choro, nem queixas e nem nostalgias, ele sabia que um dia iria partir e estava feliz por visitar o lugar que lhe ensinara a encarar vida. Quando saiu de sua aldeia ele prometeu voltar e assim fez muitas vezes. Mas, agora talvez fosse o último encontro. Mas, nada de queixas. Passou o café, fez uma torrada e colocou o vidro de geleia em cima da mesa. Tomou cada gole de café como sempre fazia, sentindo o gosto de uma bebida que amava.

    Duas horas depois estava no aeroporto e, em poucas horas, desembarcaria no aeroporto de seu país, lugar que nunca esqueceu e que sempre voltava para rever alguns amigos que nunca deixaram o lugar. Mas a sua grande paixão era a paisagem que ficou gravada em sua alma, especialmente o Vale do Issa onde viveu a sua infância. Um lugar que lhe dava a certeza da eternidade da vida... O bule com resto de café ficara à beira do fogão e uma cortina cobria a metade da janela. Uma brisa fez dançar as flores das jardineiras penduradas nas paredes. Havia algo que soprava vida naquele lugar...

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