Os enigmas das ruas...

    Eu fazia parte daquele grupo de meninos curiosos. Éramos os poucos que dividíamos o futebol com as divertidas brincadeiras de conhecimentos. Gostávamos de nos aventurar nos segredos escondidos nas ruas, nas escolas e em outras coisas que faziam parte da nossa cidade. O nosso líder era o Jorge, que mais tarde virou professor. Era muito criativo nas suas invenções, coisas que ainda me divertem.
    Uma das tarefas divertidas era descobrir os personagens que davam nomes as ruas e nem sempre eram nomes de pessoas. Descobrimos que as ruas podiam ter nome de cidades, de árvores, de pássaros ou de datas. Foi assim que desbravei a minha cidade, rua por rua. O nome mais bonito de todas as ruas era a que eu morava, rua Soledade! Nossa, quanto estudei para entender o nome de minha rua. Soledade, traduzindo quer dizer saudade e a saudade passa também pela solidão. A minha rua tinha um nome triste, nostálgico, mas apesar disso, era uma rua alegre.
    Também havia nomes engraçados e difíceis de entender, a rua pindorama era uma rua nova e que ganhou esse nome que não era nem de pessoa, nem de pássaro e nem de data. As mais compreensíveis eram as ruas de heróis e que mais tarde soube que as suas histórias não eram bem assim... Mas, em determinado momento da história, seus nomes foram escolhidos para dar nome aquela rua, sem que os seus moradores tivessem o direito de escolher.
Uma vez mudaram o nome da minha rua, passou a se chamar rua Doutor Eduardo Duarte, mas o povo não gostou e não mudou e ela voltou a ser chamada de Soledade. Não conheci o Dr. Eduardo, mas, de qualquer maneira, Soledade identificava aquela gente. Quando trazíamos as nossas extensas listas, das ruas que pesquisávamos, haviam discursos inteligentíssimos sobre os nossos estudos, aquilo era uma verdadeira “câmara municipal” em nosso bairro.
Ainda hoje guardo o nome de muitas ruas da minha cidade e sei também quem são os personagens. As mais próximas de minha cidade eram a Salgado Filho, a Rio Parto, a Rio Grande, a Novo Hamburgo, a 24 de Agosto, a Padre Felipe... E havia também as travessas... tenho todas elas em minha memória e sei a razão de seus nomes. Aquelas brincadeiras nos levavam a mergulhar nos enigmas de nossa cidade.
    Esses dias, num sábado, fui passear pelo meu bairro e descobri uma rua com o nome de Professor Bertrand Russel e imediatamente eu me lembrei que havia estudado esse autor e que ganhara o prêmio Nobel de 1950. E também foi o filósofo ateu que mais despertou a minha atenção e que li mais de uma vez. A sua obra “Por que não sou cristão” me marcou. Mais tarde encontrei o livro entre os outros que estão na prateleira. E todas essas coisas começaram naquele tempo de menino, quando curiosamente desvelava as ruas de minha cidade...

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