A caixa dos desaforos

    Gilberto B. da Cunha
    Psicólogo CRP 07/21456

    Eu acho o meu amigo genial. Ele se ocupa com muitos afazeres e tem, também, tempo de lidar com os desaforos. Ao contrário dos que dizem que não devemos levar os desaforos para casa, ele os leva. O seu ritual é diferente, mas simples e eficaz. Ele tem uma caixa onde deixa lá todos os desaforos que recebe. Durante os desaforos ele não diz nada, não fala nada e não responde, raras são as suas palavras durante esses momentos. Costuma manter a calma e a serenidade. Depois, ao chegar em casa, ele abre a sua caixa e deposita nela todos os desaforos e não fala mais sobre o assunto.

   Oportunamente, ele leva a caixa para um lugar deserto e abre a tampa e deixa todos os desaforos dançarem ao vento. Ele costuma dizer que, naquele momento, os desaforos correm ao encontro de seus donos para se aninharem em seus corações. Essa é a didática que o meu amigo usa para lidar com os desaforos que aparecem em sua vida. O meu amigo me disse que estamos numa época em que os desaforos são comuns e que a sua caixa anda funcionando muito bem, sempre a seu favor.

    Meu amigo não é famoso e nem faz palestras sobre como lidar com os enigmas do coração humano, não é um bibliófilo, não gosta de escrever, mas é um grande observador do comportamento humano. Costuma fazer esquemas e desenhos que traduzem os aprendizados da vida, da sua diária convivência com as pessoas. Ele costuma dizer que é um aluno primário das relações humanas e que seus apontamentos são tacanhos diante da complexidade humana. Mas, os conteúdos da sua “caixa dos desaforos” são verdadeiros e refletem as indelicadezas e os ultrajes de muitas pessoas.

    O meu amigo é genial na maneira de encarar o desrespeito, o cinismo e a petulância de certas pessoas.

 

 

 


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