CASA NA MONTANHA 

Gilberto B. da Cunha
              Psicólogo CRP 07/21456

Meu amigo foi morar na montanha, lugar estratégico para não perder a vista da cidade. Eu diria que ele é urbano, sem a cidade ele não teria a sua matéria prima para escrever as suas crônicas diárias. Ele precisa da cidade, ele ama a cidade, é dela que ela tira as suas inspirações. Mas, ele decidiu morar na montanha, distante do barulho, do asfalto e das luzes da cidade. Ele pediu para um amigo dele, um caprichado engenheiro que o ajudasse a construir uma casa de frente para a cidade, queria a construção com alpendre, lugar de onde poderia mirar a cidade.

Comparo o meu amigo ao jovem que ama a sua namorada, mas não quer ficar perto dela. Pura contradição! Ah, diria meu amigo: Caro, Gilberto, eu sou um ser humano contraditório, sem nenhum problema. Eu sei disso, ele também sabe. E não vejo problema nessa contradição. Ele se arranja com os seus contrastes internos, os seus estudos psicanalíticos resolvem os seus dilemas. Na peça ao lado do alpendre há um divã a sua espera.

Nós nascemos e crescemos na mesma cidade, pasmem! E sem saber enveredamos pelos mesmos caminhos da psicanálise. Ah, impossível não analisar as suas contradições e rir delas. Mas, ele gentilmente me acusa de divergente. Bah, cara, ele me diz: “vai ser divergente assim lá no céu”. Para ele o céu é cheio de divergências. Eu sempre respondo: Será? E divagamos sobre céu e montanhas, sobre filhos e sobre a vida. E bebericamos um gole de conhaque, antes da janta.

Estamos concluindo a nossa passagem aqui, ele me lembra. Diz isso para que eu aproveite o máximo do que ainda tenho. Eu o lembro dos seus três infartos e rimos de nossas fragilidades físicas. E somos gratos pelo tanto que a vida nos deu. E nos dará! Acomodados no alpendre vislumbramos as avenidas lotadas de veículos. Nossas almas estão lotadas de histórias.

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