Afetos

            Gilberto B. da Cunha 
                  Psicólogo CRP 07/21456

            Eu havia decidido que viajaria aos Estados Unidos. Essa era a razão de estar naquele famoso e caro curso de língua inglesa. Eu estava numa sala onde a professora era uma italiana e pouco chegada a afetos. Mantinha-se focada à gramatica e aos exercícios no laboratório, era exatamente isso e só isso que fazia. Um dia ela falou que era nascera na Itália e que já passara por alguns países e isso foi tudo o que informou sobre a sua vida.

        Quando andava pelas redondezas do prédio onde ficava o Curso, eu tentei encontrá-la em algum café, em alguma livraria, em alguma praça ou simplesmente andando em alguma calçada do centro da cidade. Mas, eu nunca mais a vi depois que terminou o meu módulo avançado das aulas. Ela foi umas das pessoas que entrou e saiu de minha vida, sem deixar nenhuma pista.

           Na sala de aula havia um grupo de mais ou menos dez pessoas, mas ninguém nunca jamais soube algo de alguém. Era como se estivéssemos longe um dos outros e de fato estávamos. Aos poucos entendi que aquele lugar a nota era zero em afetos, mas havia muita educação na forma de nos tratarmos, isso era tudo. Além do desejo de aprender inglês.

           Um dia, no intervalo, enquanto eu tomava um café, a mulher loira aproximou-se e pediu para sentar a minha mesa. Ela começou a falar e eu pensei: ela está infringindo todas as regras do lugar. Perguntou qual era a razão de eu estar querendo aprender o idioma inglês. Eu prontamente falei da minha intenção de viajar aos Estados Unidos. E devolvi a pergunta: e qual é a sua razão de estar aqui? Ela respondeu que queria retornar para a Rússia e que precisa melhorar o seu inglês, já que tinha dificuldades com o idioma russo.

            Daquele dia em diante começamos a partilhar a mesa do café, nos intervalos. Um dia, ela trouxe um álbum com as suas fotos na Rússia, a Praça vermelha, a conhecida Catedral, o Kremlin, as ruas tapadas de neve, os guardas com as suas roupas estranhas e todo o seu amor pela Rússia. Ficamos amigos, mas a nossa amizade durou apenas o tempo daquele módulo de inglês. Quando terminaram as aulas, eu nunca mais a vi. Sumiu!

            Ficaram algumas lições daquela amizade e um pouco de inglês na minha memória e isso foi tudo o que restou daqueles tempos em que antecederam a minha viagem para a Los Angeles. Desde então aprendi que as pessoas podem ser bem diferentes e que os afetos são caros demais para partilhá-los, há lugares que ele não interessa e não entra.

                                                                                                                                        29/12/2022

 


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