O passado...
Gilberto B. da Cunha
Psicólogo CRP 07/21456
Aquela sala de janela ampla, com
cortinas vermelhas, foi testemunha das conversas sobre as pessoas de nossa
família. Vovó, uma mulher quase centenária e vinda do país vizinho e carregada de
sotaque, contava longas histórias sobre a nossa gente. Chegaram ao Brasil
fugidos do inverno e da política que não favorecia os trabalhadores pobres.
Alguns foram ficando pelo caminho, apaixonavam-se pela paisagem e ali se
estabeleciam para tentar viver.
Quando finalmente chegaram a cidade grande, compraram um pequeno pedaço de terra, construíram uma pequena casa e foram à cata de trabalho. A vida não os poupou do sofrimento da fome e da morte, dois filhos pequenos morreram de doenças desconhecidas. Os menores ajudavam no que podiam e o trabalho não era fácil, a julgar pelas feridas em suas mãos. Os maiores conseguiram trabalhos nas construções, as mocinhas na fábrica de tecelagem e com o dinheiro ganho conseguiam ajudar nas despesas da casa.
Quando finalmente chegaram a cidade grande, compraram um pequeno pedaço de terra, construíram uma pequena casa e foram à cata de trabalho. A vida não os poupou do sofrimento da fome e da morte, dois filhos pequenos morreram de doenças desconhecidas. Os menores ajudavam no que podiam e o trabalho não era fácil, a julgar pelas feridas em suas mãos. Os maiores conseguiram trabalhos nas construções, as mocinhas na fábrica de tecelagem e com o dinheiro ganho conseguiam ajudar nas despesas da casa.
Com o tempo conseguiram se
comunicar com os parentes que ficaram pelo caminho. Tia Candoca, que ficara
viúva cedo, ficara na cidade de Santa Tecla e ali conheceu um senhor que
trabalhava na charqueada e com ele se casou, juntos tiveram três filhos. As cartas
eram raras, mas pelo menos umas três vezes ano elas chagaram na casa de vovó, que
logo as respondia com as notícias de sua família. Tio Ramão, o mais divertido
dos filhos de vovó, conheceu uma moça de circo, casou-se com ela e foi
trabalhar como palhaço no circo do sogro. Um dos parentes soube que ele estava
residindo no Rio de Janeiro e que tinha duas filhas.
Um outro tio, casara-se com uma
imigrante alemã e estudara para ser médico, mas não chegou a se formar. Era o tio
Jorge! Logo depois do casamento ele conseguiu um importante emprego no
Departamento de Saúde da sua cidade e se tornou um homem importante. A sua
caligrafia era admirável e costumava escrever longas cartas. Ele, na sua
juventude namorara uma moça de nome Nair e que certo dia, decepcionada com o
namorado, matou-se envenenada.
Depois que chegaram ao Brasil,
espalharam-se por diversos lugares e se deram em casamento com diferentes
pessoas e de diferentes famílias, de tal modo que muitos se conheciam pelas
cartas, mas não nunca se tinham visto. Algumas vezes, lembrávamos, que pessoas
desconhecidas chegavam a nossa casa e passavam dias ou semanas e passavam
tempos conversando e rindo e lembrando das terras que deixaram para trás. Para nós,
os pequenos, haviam lugares e pessoas que só existiam em nossa imaginação e nas
histórias que vovó contava, naquela sala das janelas com cortinas vermelhas.
Somos apenas um pedaço da história
que começou num distante país, lugar onde nunca fomos, mas é parte de nossas
histórias. De algum lugar de nosso passado, ainda hoje, surgem pessoas que
vivem dentro de nós e que jamais conheceremos.
30/12/22
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