Um texto solipsista...
Psicólogo CRP 07/21456
Os cômodos da casa eram caprichados, de bom acabamento e os nossos móveis ficaram muito bem distribuídos em cada peça da casa. Era uma casa simples, mas de um inexplicável bom gosto. Os nossos móveis eram antigos, mas bem cuidados. A sensação que eu sentia naquela casa era a mesma que sentia no interior de um museu. Mas, eu me identificava com cada móvel que estava no interior daquele rancho recém comprado pelo pai e que se tornara a nossa residência.
O velho guarda-roupa escuro tinha
uma imponência espantosa, meus pais o compraram quando se casaram, ele os
acompanhara em todos os lugares que moraram. Era um modelo antigo e de madeira
forte. A cômoda fazia parte do conjunto, indescritível o meu sentimento quando
via minha mãe penteado os seus cabelos em frente desse móvel posicionado num
canto do quarto.
Na sala estavam os pares de sofás
com panos vermelhos e com desenhos finíssimos, os descansos para os braços eram
de madeira pura, sem pintura. Eram lindos e admirados pelos nossos visitantes.
Na outra peça estava a prateleira com sua parte superior de vidros e no seu
interior uma coleção de xícaras e bules importados, todos sempre muito limpos.
Nas gavetas havia muitos talheres, muitos dos quais nunca soube a finalidade. A
velha bacia de rosto, de colorido azulado e com pingos brancos e finos
sustentada num móvel de ferro. Era um presente da tia Irene, que se casara dois
meses depois dos meus pais.
A minha cama, quantas fantasias na
minha infância, era construída de madeira e seu formato era colonial. Um estilo
original para acolher os sonos sagrados do menino. No canto, um berço,
igualmente de madeira, que serviu para todos os filhos. E o quadro da sala?
Inesquecível aquela moldura e o seu desenho de uma paisagem em colorido verde,
uma obra de arte que se perdeu, depois da reforma do rancho.
A mesa da varanda era linda e foi
testemunha das longas conversas da família. Um lugar que acomodou os melhores
pratos e os melhores talheres nas ceias de Natal e nas refeições de Páscoa.
Mas, também foi a melhor testemunha dos nossos projetos de vida, de nossas
discussões e das nossas preces. Ao lado, num canto, uma cadeira preguiçosa,
presente do meu avô e lugar onde eu costumava ler os meus primeiros livros.
Aquela antiga casa causa-me,
ainda, sensações estranhas, os seus móveis me perseguem para onde quer que eu ande
e não são meras impressões de minha imaginação. São espíritos que afiançam a
minha vida de solidão...
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