Um país terrível

    Gilberto B. da Cunha
    Psicólogo CRP 07/21456

     Um jovem professor de literatura de uma das universidades da cidade de Nova York, certa noite, recebe uma estranha ligação do seu irmão que mora em Moscou. Aflito, o irmão fala que está de partida para Londres, tem negócios importantes nessa cidade. No fim das contas, pede que o irmão passe um tempo em Moscou para cuidar da avó. O jovem professor pergunta ao irmão quando ele irá para Londres, assim tem tempo de planejar a sua viagem. O irmão responde que, na verdade, já está em Londres. Como sempre, diz o jovem professor, meu irmão é surpreendente.

    Mesmo contrariado com urgente situação, ele embarca para Moscou. Ele mesmo fora criado até os 16 anos nessa cidade, mas não imagina o que aconteceu com ela durante esse tempo que mudara com a família para Nova York. E ao chegar na Rússia ele encontra um país diferente, mas com fortes traços de pobreza e de opressão. A parte palatável do livro é a relação do jovem com a sua avó, uma senhora de 89 anos e com problemas de memória.

       Foi convivendo com a sua vó, ouvindo as suas histórias é que ele começa a ver as lacunas da sua vida acadêmica, ela, em seus momentos de lucidez, conta histórias fantásticas do seu tempo de professora na universidade de Moscou. Conta ao neto das dificuldades que foi viver naquele país soviético. Percebendo a riqueza das histórias de sua avó, ele estimula a “velha professora” a falar mais das suas experiências. Mesmo assim ele nunca conseguiu saber muito, ela dizia não lembrar muito e tampouco mostrava vontade de lembrar.

        A convivência com a vó em Moscou desencadeou uma forte lembrança de sua vida como professor acadêmico e uma crítica nunca antes manifestada. Surgiu um pensamento que estava escondido no mais profundo de sua alma de mestre em literatura: a universidade pedia para que os alunos focassem apenas numa ideia, limitada e particular, era esse o típico pensamento que encontrava na universidade. E, assim, o jovem professor começa a mudar o seu pensamento sobre a sua didática de percorrer os caminhos da literatura e a sua forma de ver a literatura.

    O livro, “Um país terrível”, é trata-se do doce e complexo encontro de um jovem professor americano, nascido na Rússia, com a sua avó, uma professora universitária aposentada e com problemas de memória. E, como é compreensível, um ser humano atormentado pelas lembranças terríveis do tempo em que a opressão deixava marcas profundas de medo, de solidão e de sofrimento.

    A comunicação com os alunos, via-internet, passa a ser um ponto central na vida do professor e da sua nova forma de ver a universidade. Além disso, as suas investidas no facebook para ver as notícias de sua ex-namorada o deixa pensativo sobre os seus afetos, seus erros e as suas investidas rasas na arte de amar. Para ele, o facebook é um lugar de estupidez e não consegue ver, nesse espaço, ideias inteligentes, lembrava os seus alunos que costumavam falar e escrever sobre livros e textos que não costumavam ler. Mesmo assim, ele se permitia ao duvidoso prazer de navegar um pouco pelo facebook... 

                                                                                                                                      (05/01/2023)


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