Tia Bela
Psicólogo CRP 07/21456
Duas a três vezes por ano a tia Bela se deslocava do Rio Grande para visitar o meu bisavô. Eles, e mais um outro tio que ficara em Bagé, eram os sobreviventes de uma numerosa família que viera do Uruguai. Seus pais cruzaram a fronteira para trabalharem nas charqueadas dos Moglia. Tia Bela e o meu bisavô João eram irmãos de sangue de alma, davam-se muito e tinham grandes afeições um pelo outro. Durante as visitas de tia Bela, eles passavam horas conversando enquanto ela se entretinha com os se crochê nas mãos. Nunca vi alguém com tamanha habilidade.
Tia Bela era uma mulher alta,
bonita, cabelos branquíssimos, óculos na ponta do nariz e sempre sorridente. Na
época, tinha seus oitenta e tantos anos, era a primogênita dos irmãos. Ela contava
muitas histórias e tinha um cartel interminável de personagens. Ela se parecia
com uma rainha, era educadíssima e o seu português era impecável e, sabíamos,
que ela falava perfeitamente o espanhol. Era uma mulher diferente pela sua
forma de tratar as pessoas e de saber muitas coisas da vida.
Quando a tia Bela chegava com
seus olhos verdes e o seu sorriso grande, vovô João (na verdade bisavô) corria
ao seu encontro para pegar a sua mala personalizada, logo que ela descia do
carro de praça. Ela sempre tinha uma palavra carinhosa para elogiar a cidade.
Geralmente ela dizia: “Mas, João: como essa cidade está bonita”. E nós que
vivíamos na casa do Vovô, adorávamos esses elogios. E, depois da limonada
gelada, vinhas as notícias do pessoal do Rio Grande e de Bagé.
As visitas da tia Bela eram
sempre esperadas, um evento para nós. Ela trazia livros para as crianças e um
pacote de canjica lá do interior, as daqui não são boas, ela dizia. Ela passava
horas conversando com vovó Honorina que durante as suas visitas de caprichava
no almoço, sempre nas panelas de ferro. Não obstante ao modo educado e fino da
tia Bela, muitas vezes era ela que fazia os almoços, para que o vovô João
lembrasse do tempero da sua mãe, Ana Velleda.
Um dia, sentimos falta das
visitas da tia Bela. Onde ela estaria? Por que não vinha mais? Então,
descobrimos o segredo que vovô Honorina dividia com as filhas e os filhos: ela,
depois da morte de um dos seus filhos, entrou num profundo estado de tristeza e
morreu dois meses depois do filho. Mas, isso era um segredo e que vovô João não
deveria saber, já que ele não estava bem de saúde.
Hoje, sessenta anos depois, eu
lembrei daquela dileta figura que sempre vinha visitar os meus bisavôs e que,
por sorte, estávamos por lá para usufruir de suas histórias e da sua imensa
cultura, ela que viera, ainda criança, dos lados do Uruguai. Engraçado que nunca
soubemos qual era o verdadeiro nome dela...

Nenhum comentário: