O vaso

    Gilberto B. da Cunha
    Psicólogo CRP 07/21456

    Eles sabiam que ia dar certo. Depois de muitos namoros e alguns noivados, foram quatro, ele a escolheu com todas as instâncias de seu coração. Ela acreditou nele desde o primeiro momento. Ele não queria perder a moça de olhos claros e brilhantes e ela tinha projetos para o moço dos trinta. Fizeram projetos, combinações e juras, depois noivaram e se casaram na igreja do lugar, tudo muito simples. E tudo aconteceu em seis meses. Alguns poucos apostaram que “esse amor” não duraria.
    Numa noite fria, chovia muito quando o telefone tocou. Era do hospital. Eu já sabia. Naquela sala, fui comunicado que ela morrera, depois de dez dias internada e de uma delicada cirurgia. O cortejo seguiu de madrugada para a cidade vizinha onde ele receberia o amor de sua vida. Ele estava lá! O seu semblante era o reflexo de uma dor profunda, perdera o amor de quase quatro décadas. Não derramou uma lágrima, mas nós, os seus filhos, sabíamos que ele desabaria em algum momento, quando estivesse sozinho.
    Alguns meses depois, foi a vez dele. O atestado dizia infarto, mas sabíamos que ele morrera de saudade. Os sentimentos também matam. Ele negou-se a outro amor, o seu amor era para sempre, era um eterno e definitivo amor por aquela a quem entregou todo o seu coração. Naquela tarde foi sepultado rente àquela a quem sempre amou. Agora descansam juntos, para sempre e ficam as histórias e as lembranças.
    O vaso que os dois escolheram para eternizar o amor, está exposto em lugar de minha casa. Ele é a testemunha de que o amor existe! Ele retrata o cenário e os personagens que me deram a vida. Sem ele não seria possível lembrar todos os dias, com certa exatidão, daqueles que tiveram a coragem de apostar no amor. Apostaram e deu certo, mas só eles poderiam descrever todas os tons que existem na arte de amar.

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