Eu fiz parte desse
grupo...
Mais ou menos uma vez por ano, as vezes duas ou três, o circo chegava na cidade. Quando ainda nem as lonas tinham sido postas, a camioneta percorria as ruas da cidade anunciando a estreia do espetáculo. Era o tempo de guardar as moedas e juntar uma grana para assistir pelo menos duas sessões.
Havia apresentações imperdíveis e
que todos aguardávamos, os trapezistas, o globo da morte e os seus motociclos
barulhentos, os palhaços e os animais, entre outras apresentações. Alguns
circos costumavam trazer cantores que faziam sucesso na época, Teixeirinha e
Gildo de Freitas eram alguns deles.
Quem não temia quando o domador
entrava na jaula do leão? Quem não se assustava com o tamanho do elefante? Quem
não sorria com os cachorrinhos pulando obstáculos? O palhaço quase sempre
provocava a plateia, mas sempre fazia rir com os seus trejeitos e a sua cara
pintada.
Passou o tempo...
Hoje, olhando de longe, com o
coração mais tranquilo e mais pensativo, eu fico pensando na crueldade com
aqueles animais. Quanto devia doer no lombo do leão as chicotadas e o quanto
ele se esforçava para obedecer às ordens de seu comandante. E o enorme
elefante, animal tranquilo e afetivo, que fazia enorme força para manter-se em
cima de um pequeno tambor. Aplaudíamos os heróis que dominavam os animais
selvagens.
Algumas vezes, com um dos meus
amigos, íamos ao circo, nos dias de semana, só para ver como estavam os animais.
A tristeza do elefante, sempre de cabeça baixa, manter-se dentro dos pequenos limites
que lhe destinavam. Os leões trancafiados em suas jaulas de grossas barras de
ferro reforçadas por enormes correntes. Tudo era silêncio naquele tempo e era permitido
prender, chicotear e, em alguns casos, até matar os animais, se caso eles
reagissem.
Mais um pouco tempo...
Ainda bem que as regras mudaram,
pelo menos por aqui, tanto quanto sei. Quando naquela época era herói quem
dominava os animais selvagens, hoje pelo menos já sabemos quem eram os selvagens.
Eu, pelo menos, sei o quanto saia doido daqueles espetáculos, mas não podia manifestar
esse sentimento. Afinal, aos homens cabia dominar o universo, com os seus
chicotes e com o álibi de que Deus o fez para dominar todas as criaturas... Uma
interpretação errônea, é claro!

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