Chinelo é algo muito sério...
Gilberto B. da Cunha
Psicólogo CRP 07/21456
Eu me lembro que, pelo menos uma
vez por ano, viajávamos para a capital a fim de comprarmos pares de chinelos no
Mercado Público. Segundo ele, só nesse lugar se encontravam os melhores
chinelos. Ele fazia uma compra razoável, chinelos para todos, inclusive para as
crianças. Mas, antes de chegar aos nossos pés, eram fiscalizados pelas suas
mãos. Não podia ser qualquer couro e a costura tinha de ter um acabamento perfeito
e os seus olhos passavam umas três vezes pelas costuras e pelo formado dos
chinelos. Escolher um par deles era coisa séria.
Não havia nenhuma pressa quando meu
avô chegava ao Mercado para a comprar dos chinelos. Ele seguia um ritual que só
ele entendia, muitas vezes eu me sentia enjoado com tamanha exigência e, ao
mesmo tempo, curioso para entender os segredos que existiam naqueles chinelos
de couro. Algumas vezes, ele rejeitou todos os chinelos, para voltar na semana
seguinte.
Ele conhecia muitos tipos de chinelos
e fazia críticas inteligentes sobre aqueles que caiam em suas mãos. Talvez aqueles
jovens vendedores das barracas do Mercado pensassem que o meu avô fosse um
experiente sapateiro de alguma cidade mágica, eles eram muito compreensivos com
ele...

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