Idosos

          Gilberto B. da Cunha   
            Psicólogo CRP 07/21456

        O meu primeiro estágio como estudante de psicologia foi num lar para idosos, de boa fama na cidade. Havia muitos idosos e muitas alas diferentes para acolher as diferentes realidades. Era coordenado pelas dedicadas irmãs Vicentinas, que amavam o que faziam e se dedicavam com muito amor. Sair das páginas dos livros que tratavam do tema idoso e deparar-se com os idosos tinha uma distância. De posse de alguns conceitos dos livros e dos polígrafos, entrei no lugar. Aos poucos a realidade foi envolvendo a nossa prática e reconstruindo novos caminhos. Devo dizer que guardo com gratidão os momentos de supervisão que universidade oferecia.

       Poderia descrever diversos momentos que passei junto aos nossos idosos, entre eles as nossas conversas, as escutas valiosas, as histórias (quase sempre doídas e tristes) e também os momentos de música, de dança e de risadas. Com o passar do tempo, as nuances da vida das idosas foram construindo um novo universo das ideias que tinha sobre essa etapa da vida. Trabalhar com elas é acolher o passado e a velocidade de como ele é transmitido. Estar atendo ao olhar, muitas vezes molhado, ao tom de voz, aos movimentos das mãos, aos suspiros e os são importantes para entrar nas emoções de nossos idosos.  

        Continuo lendo as aventuras de Andrei que foi para a cidade de Moscou, a sua tarefa é cuidar da sua avó, uma senhora octogenária e sobrevivente do regime soviético. Um dia, a avó de Andrei percebeu que o neto não falava com ela como costumava falar com os seus amigos. O seu neto não tinha a mesma disposição. Era uma queixa comum em se tratando dos idosos. Andrei pede desculpas para a avó e percebe que está transitando no interessante mundo de sua avó. Embora, nas páginas seguintes da história, ele admite que o seu zelo era cada vez menos...

        Vivemos num mundo que não foi pensado para os idosos, construímos prédios que não são acessíveis para eles e mais do que isso, não educamos o nosso coração para acolhê-los com os seus limites, com suas histórias e com as lentidões. Eis um lindo e árido tempo da vida que nos desafia a lidar com os limites físicos e com os devaneios. É uma fase da vida em que as lembranças e as fantasias se misturam...   

                                                                                                                        (09/01/2023)

 

 

 

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